|
Em
2005, além das entrevistas com convidados, estaremos
trazendo a cada mês um pouco da vida e trabalho
dos professores da psicologia e funcionários
dos bastidores da Evangélica.

Profª. Solange L. Machado
"A
base da criatividade é a flexibilidade, mas a
base da ação criativa é a confiança
nas infinitas possibilidades de sua vida".
Por
Mariana Monteiro
Em
psicologia você tem uma carreira um pouco diferente
do habitual. De que forma isto foi acontecendo?
Quando
terminei minha graduação, em 1992, a maioria
de meus colegas estava seguindo o que era mais ou menos
o esperado deles na época: procurando um lugar
ao sol na área clínica, enviando currículos
para empresas, buscando formações complementares
em psicologia. De início fiz o mesmo. Eu já
tinha cumprido três anos de estágio em
recursos humanos em uma grande empresa e não
tinha um interesse maior na área. Por incentivo
de alguns professores, comecei a fazer clínica
comportamental e uma Especialização em
Behaviorismo na UFPR. Foi lá que conheci a Paula
Gomide, e dei os primeiros sinais de que não
continuaria fazendo as coisas do modo habitual. Ela
aceitou ser minha orientadora em uma monografia que
propunha um modelo de ensino de Análise Experimental
do Comportamento via computador. A idéia era
boa, mas estávamos no início dos anos
90 e a informática não estava tão
difundida assim na sociedade. Similar ao que eu queria
fazer só havia um software do Catania em linguagem
DOS. Os que conheceram lembram que a aparência
era horrível, aquelas linhas verdes sobre o fundo
de tela preto... Nos últimos dois ou três
anos ouvi em congressos trabalhos avaliando este tipo
de ensino - alguns americanos construíram programas
mais modernos. No momento considera-se que os resultados
são um tanto limitados. Mas naquela época,
era inovador. Para mim, foi o despertar para duas coisas
que eu apreciava muito: o ensino e o trabalho com comunicação.
Mas, e a clínica?
Paralelamente,
eu estava me especializando no tratamento de pacientes
com dor crônica. Fiz curso no exterior, andei
pela Europa, aprendi francês e as portas para
o mundo se abriram para mim. Sou grata à esta
fase de minha vida e a todos que me ajudaram nela, pois
cresci muito pessoal e profissionalmente. Então,
em certa viagem, tive uma experiência trágico-cômica
tentando subir sozinha em um trem em Bruxelas com uma
mala de 40 kg, em plena neve. Era uma daquelas malas
duras e enormes, Samsonite, e eu tinha subido no vagão
errado. Jurei que nunca mais carregaria tanta coisa.
Ao chegar em casa, abri a mala e quase metade do peso
era de papéis. Mas apenas uns 10 ou 20% eram
relativos a clínica. O restante eram livros ligados
à comunicação, consumo e marketing.
Caiu uma ficha. Alguma coisa estava acontecendo ali.
Eu deixei definitivamente a clínica e passei
a estudar por conta própria tudo em que pus os
olhos sobre estes temas.
Que recursos havia nesta época no Brasil?
Quase
nada. Em termos bibliográficos havia o livro
clássico da brasileira Christiane Gade, Psicologia
do Consumidor. O resto era literatura da área
de marketing e administração. No Paraná
havia um ou dois psicólogos com atividades ligadas
ao marketing. No Brasil, não havia muito mais
e cada um trabalhando fechado no seu mundo.Estudei e
comecei interagir com pessoas da área. Como eu
já tinha treinamento de pesquisa, comecei a fazer
pesquisa de comportamento do consumidor, ensinar e escrever
na área. Nesta época, também entrei
para o mestrado de Psicologia da Infância e Adolescência
da UFPR. Novamente, a parceria com a Paula Gomide se
refez. E uma vez mais, ela aceitou ser minha orientadora
em um projeto de pesquisa fora de sua área direta
de conhecimento. Como ela tem um conhecimento muito
bem fundamentado de Metodologia da Pesquisa, é
capaz de pegar qualquer projeto e colocá-lo nos
trilhos. O que fiz foi utilizar tudo o que tinha aprendido
sobre comunicação e comportamento do consumidor
e aplicar na análise da comunicação
anti-tabagista do Ministério da Saúde.
Entrevistei 320 adolescentes da cidade e avaliamos diversos
aspectos relativos ao tabagismo entre os adolescentes
e o impacto da última campanha do governo FHC,
no ar em 2002. Para ter uma base teórica mais
sólida, fui liberada para fazer disciplinas no
Mestrado de Administração da UFPR, onde
cursei p.ex., Comportamento do Consumidor, com o Prof.
Renato Marchetti, uma das referências nacionais
na área. A banca examinadora na defesa da dissertação
foi bem interessante: professores da psicologia e do
marketing. Ocorreu uma bela discussão, em uma
das raras bancas de fato interdisciplinares que ocorreram
lá, segundo a Profa. Paula.
Hoje a situação mudou em termos de
formação e atuação nessa
área?
Mudou
um pouco. Há mais psicólogos interessados
no assunto, muitos disputando espaços em agências
de comunicação e marketing e nos setores
de informação mercadológica de
grandes empresas. Já há alguns trabalhando
em institutos de pesquisa do consumidor. Acho que dei
uma contribuição para isso, despertando
alguns para irem à luta na área. Por alguns
anos fiz muitas conferências e alguns cursos sobre
o tema em faculdades e congressos. Em termos de formação
direta para o psicólogo, ainda falta uma especialização
direcionada, mas isso vai surgir naturalmente, com a
progressiva ampliação da área.
De todo modo, esta não é uma área
para quem espera encontrar os caminhos trilhados e prontos.
A característica do profissional que consegue
fazer algo aqui é o espírito independente,
uma curiosidade constante por tudo o que está
acontecendo no mundo e o desprendimento para buscar
reunir diferentes áreas de conhecimento e aplicação,
de um modo que não está escrito nos manuais.
Em termos de graduação, temos aqui na
Evangélica o grupo de Comunicação
e Marketing, formado por alunos que supervisiono. E
recentemente soube de uma faculdade na Bahia que incluiu
a disciplina de Psicologia do Consumidor no currículo.
São os ventos, ainda tênues, da mudança.
Que conhecimentos da psicologia tiveram mais peso
para sua atuação nesta área?
Etologia,
psicologia da percepção e análise
do comportamento de indivíduos e grupos.
E fora da psicologia?
O
leque se amplia bastante. Por isso é preciso
ser um "curioso profissional" . Comunicação,
comportamento do consumidor e marketing, evidentemente.
Mas além disso, sociologia, antropologia, administração
e estratégia. É preciso também
ser um observador atento do movimento das sociedades
e adquirir a capacidade de "cheirar" no ar
e antecipar tendências que de um modo ou outro
vão acabar repercutindo na vida das pessoas em
algum tempo. Particularmente, creio que meu talento
é perceber tendências e trabalhar para
concretizar uma visão, freqüentemente onde
antes não existia nada.
Onde entra o ensino superior na sua carreira?
Este
ano completo dez anos como professora universitária.
Gosto muito de estar com os alunos; com o passar dos
anos fui melhorando minhas habilidades como professora
e hoje é uma parte importante da minha vida.
Dá-me muito prazer ver as sementes plantadas
brotando, cedo ou tarde. Aliás, a origem da palavra
professor é latina - educatore, que significa
"jardineiro". Acho muito apropriado para qualificar
o comportamento dos professores que gostam verdadeiramente
do que fazem.
Na Evangélica, o que faz o grupo de Comunicação
e Marketing da psicologia?
Os
alunos são preparados para aplicarem os princípios
destas área em um caso real. No ano passado e
neste ano, escolhemos o próprio curso de Psicologia
da Evangélica como cliente. Quando o curso iniciou,
há dois anos (estamos entrando no terceiro agora),
já havia na cidade cinco outros cursos de formação
em psicologia, antigos e novos. O desafio era destacar-se
neste cenário. A Evangélica tinha grande
tradição e respeitabilidade, mas na área
de Medicina. Os outros cursos de saúde pertencem
a história recente da faculdade. É mérito
do grupo o planejamento estratégico de marketing
do curso, que norteia todas as suas ações
de comunicação. Geramos a definição
de posicionamento de mercado do curso (Compromisso com
a saúde) que foi discutida e acordada com a coordenação
e professores e respeita a imagem de mercado da Evangélica.
Também elaboramos a marca (Psicologia na Evangélica)
e sua linguagem visual; supervisionamos a produção
de material gráfico (como folders de cursos)
e participamos da discussão de todas as ações
que de alguma forma repercutem sobre a imagem do curso
no mercado. Por fim, produzimos e mantemos mensalmente
um jornal eletrônico sobre o curso que é
entregue para milhares de pessoas no país, notadamente
da área de saúde e educação,
mas agregando muitos outros que simplesmente se interessam
pelo que fazemos.
E este ano, qual é o foco do grupo?
Um
projeto mais ambicioso. Planejaremos e implantaremos
um programa de Marketing Social, em parceria com os
alunos de Psicologia Social, supervisionados pela Profa.
Neuzi Barbarini. Os primeiros beneficiados serão
os membros da comunidade- alvo da ação.
Depois os próprios alunos, que terão uma
experiência interdisciplinar ímpar, com
a satisfação de ver sua ação
resultando em ganhos pragmáticos para a comunidade.
Esta ação é coerente com a filosofia
da Faculdade Evangélica, que é uma instituição
filantrópica, que precisa agir socialmente, e
é exatamente isso que estará fazendo.
Para encerrar, esclareça algo que ouvi nos
corredores. É verdade que você foi fotógrafa
profissional?
(Risos).
Não sei como você descobriu, mas sim. Durante
a graduação trabalhei como fotógrafa.
Quando me formei fui deixando aos poucos. Vendi meu
equipamento e fiquei apenas com o suficiente para fazer
algumas fotos por prazer. Tenho uma dívida para
com a fotografia pois anos depois foi através
dela que, de certa maneira, conduzi-me para o caminho
da Psicologia da Comunicação e Marketing.
Analisando fotos e filmes publicitários comecei
a me interessar pelo assunto. Hoje, olhando para trás,
avalio que precisamos respeitar e de alguma forma incluir
no que fazemos, os talentos que temos e que aparentemente
não têm utilidade num dado momento. Somos
resultado de uma história passada que atualizamos
a cada dia. Como professora, incentivo os alunos a buscarem
caminhos não trilhados sem receio. Acredito que
o tempo do exclusivismo de ações e áreas
profissionais está acabando. Estar aberto para
o novo, o inabitual, por si só, já é
um diferencial competitivo para os novos profissionais
que estão entrando no mercado. O profissional
melhor habilitado será o capaz de articular conhecimentos
de diferentes áreas, integrá-los à
sua própria formação e propor assim
ações diferenciadas. A base da criatividade
é a flexibilidade, mas a base da ação
criativa é a confiança nas infinitas possibilidades
da sua vida.
|