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Ano 02 / nº 10 / Fevereiro de 2005
 
  Entrevistas
 

Em 2005, além das entrevistas com convidados, estaremos trazendo a cada mês um pouco da vida e trabalho dos professores da psicologia e funcionários dos bastidores da Evangélica.


Profª. Solange L. Machado

"A base da criatividade é a flexibilidade, mas a base da ação criativa é a confiança nas infinitas possibilidades de sua vida".

Por Mariana Monteiro

 

Em psicologia você tem uma carreira um pouco diferente do habitual. De que forma isto foi acontecendo?

Quando terminei minha graduação, em 1992, a maioria de meus colegas estava seguindo o que era mais ou menos o esperado deles na época: procurando um lugar ao sol na área clínica, enviando currículos para empresas, buscando formações complementares em psicologia. De início fiz o mesmo. Eu já tinha cumprido três anos de estágio em recursos humanos em uma grande empresa e não tinha um interesse maior na área. Por incentivo de alguns professores, comecei a fazer clínica comportamental e uma Especialização em Behaviorismo na UFPR. Foi lá que conheci a Paula Gomide, e dei os primeiros sinais de que não continuaria fazendo as coisas do modo habitual. Ela aceitou ser minha orientadora em uma monografia que propunha um modelo de ensino de Análise Experimental do Comportamento via computador. A idéia era boa, mas estávamos no início dos anos 90 e a informática não estava tão difundida assim na sociedade. Similar ao que eu queria fazer só havia um software do Catania em linguagem DOS. Os que conheceram lembram que a aparência era horrível, aquelas linhas verdes sobre o fundo de tela preto... Nos últimos dois ou três anos ouvi em congressos trabalhos avaliando este tipo de ensino - alguns americanos construíram programas mais modernos. No momento considera-se que os resultados são um tanto limitados. Mas naquela época, era inovador. Para mim, foi o despertar para duas coisas que eu apreciava muito: o ensino e o trabalho com comunicação.


Mas, e a clínica?

Paralelamente, eu estava me especializando no tratamento de pacientes com dor crônica. Fiz curso no exterior, andei pela Europa, aprendi francês e as portas para o mundo se abriram para mim. Sou grata à esta fase de minha vida e a todos que me ajudaram nela, pois cresci muito pessoal e profissionalmente. Então, em certa viagem, tive uma experiência trágico-cômica tentando subir sozinha em um trem em Bruxelas com uma mala de 40 kg, em plena neve. Era uma daquelas malas duras e enormes, Samsonite, e eu tinha subido no vagão errado. Jurei que nunca mais carregaria tanta coisa. Ao chegar em casa, abri a mala e quase metade do peso era de papéis. Mas apenas uns 10 ou 20% eram relativos a clínica. O restante eram livros ligados à comunicação, consumo e marketing. Caiu uma ficha. Alguma coisa estava acontecendo ali. Eu deixei definitivamente a clínica e passei a estudar por conta própria tudo em que pus os olhos sobre estes temas.


Que recursos havia nesta época no Brasil?

Quase nada. Em termos bibliográficos havia o livro clássico da brasileira Christiane Gade, Psicologia do Consumidor. O resto era literatura da área de marketing e administração. No Paraná havia um ou dois psicólogos com atividades ligadas ao marketing. No Brasil, não havia muito mais e cada um trabalhando fechado no seu mundo.Estudei e comecei interagir com pessoas da área. Como eu já tinha treinamento de pesquisa, comecei a fazer pesquisa de comportamento do consumidor, ensinar e escrever na área. Nesta época, também entrei para o mestrado de Psicologia da Infância e Adolescência da UFPR. Novamente, a parceria com a Paula Gomide se refez. E uma vez mais, ela aceitou ser minha orientadora em um projeto de pesquisa fora de sua área direta de conhecimento. Como ela tem um conhecimento muito bem fundamentado de Metodologia da Pesquisa, é capaz de pegar qualquer projeto e colocá-lo nos trilhos. O que fiz foi utilizar tudo o que tinha aprendido sobre comunicação e comportamento do consumidor e aplicar na análise da comunicação anti-tabagista do Ministério da Saúde. Entrevistei 320 adolescentes da cidade e avaliamos diversos aspectos relativos ao tabagismo entre os adolescentes e o impacto da última campanha do governo FHC, no ar em 2002. Para ter uma base teórica mais sólida, fui liberada para fazer disciplinas no Mestrado de Administração da UFPR, onde cursei p.ex., Comportamento do Consumidor, com o Prof. Renato Marchetti, uma das referências nacionais na área. A banca examinadora na defesa da dissertação foi bem interessante: professores da psicologia e do marketing. Ocorreu uma bela discussão, em uma das raras bancas de fato interdisciplinares que ocorreram lá, segundo a Profa. Paula.


Hoje a situação mudou em termos de formação e atuação nessa área?

Mudou um pouco. Há mais psicólogos interessados no assunto, muitos disputando espaços em agências de comunicação e marketing e nos setores de informação mercadológica de grandes empresas. Já há alguns trabalhando em institutos de pesquisa do consumidor. Acho que dei uma contribuição para isso, despertando alguns para irem à luta na área. Por alguns anos fiz muitas conferências e alguns cursos sobre o tema em faculdades e congressos. Em termos de formação direta para o psicólogo, ainda falta uma especialização direcionada, mas isso vai surgir naturalmente, com a progressiva ampliação da área. De todo modo, esta não é uma área para quem espera encontrar os caminhos trilhados e prontos. A característica do profissional que consegue fazer algo aqui é o espírito independente, uma curiosidade constante por tudo o que está acontecendo no mundo e o desprendimento para buscar reunir diferentes áreas de conhecimento e aplicação, de um modo que não está escrito nos manuais. Em termos de graduação, temos aqui na Evangélica o grupo de Comunicação e Marketing, formado por alunos que supervisiono. E recentemente soube de uma faculdade na Bahia que incluiu a disciplina de Psicologia do Consumidor no currículo. São os ventos, ainda tênues, da mudança.


Que conhecimentos da psicologia tiveram mais peso para sua atuação nesta área?

Etologia, psicologia da percepção e análise do comportamento de indivíduos e grupos.


E fora da psicologia?

O leque se amplia bastante. Por isso é preciso ser um "curioso profissional" . Comunicação, comportamento do consumidor e marketing, evidentemente. Mas além disso, sociologia, antropologia, administração e estratégia. É preciso também ser um observador atento do movimento das sociedades e adquirir a capacidade de "cheirar" no ar e antecipar tendências que de um modo ou outro vão acabar repercutindo na vida das pessoas em algum tempo. Particularmente, creio que meu talento é perceber tendências e trabalhar para concretizar uma visão, freqüentemente onde antes não existia nada.


Onde entra o ensino superior na sua carreira?

Este ano completo dez anos como professora universitária. Gosto muito de estar com os alunos; com o passar dos anos fui melhorando minhas habilidades como professora e hoje é uma parte importante da minha vida. Dá-me muito prazer ver as sementes plantadas brotando, cedo ou tarde. Aliás, a origem da palavra professor é latina - educatore, que significa "jardineiro". Acho muito apropriado para qualificar o comportamento dos professores que gostam verdadeiramente do que fazem.


Na Evangélica, o que faz o grupo de Comunicação e Marketing da psicologia?

Os alunos são preparados para aplicarem os princípios destas área em um caso real. No ano passado e neste ano, escolhemos o próprio curso de Psicologia da Evangélica como cliente. Quando o curso iniciou, há dois anos (estamos entrando no terceiro agora), já havia na cidade cinco outros cursos de formação em psicologia, antigos e novos. O desafio era destacar-se neste cenário. A Evangélica tinha grande tradição e respeitabilidade, mas na área de Medicina. Os outros cursos de saúde pertencem a história recente da faculdade. É mérito do grupo o planejamento estratégico de marketing do curso, que norteia todas as suas ações de comunicação. Geramos a definição de posicionamento de mercado do curso (Compromisso com a saúde) que foi discutida e acordada com a coordenação e professores e respeita a imagem de mercado da Evangélica. Também elaboramos a marca (Psicologia na Evangélica) e sua linguagem visual; supervisionamos a produção de material gráfico (como folders de cursos) e participamos da discussão de todas as ações que de alguma forma repercutem sobre a imagem do curso no mercado. Por fim, produzimos e mantemos mensalmente um jornal eletrônico sobre o curso que é entregue para milhares de pessoas no país, notadamente da área de saúde e educação, mas agregando muitos outros que simplesmente se interessam pelo que fazemos.


E este ano, qual é o foco do grupo?

Um projeto mais ambicioso. Planejaremos e implantaremos um programa de Marketing Social, em parceria com os alunos de Psicologia Social, supervisionados pela Profa. Neuzi Barbarini. Os primeiros beneficiados serão os membros da comunidade- alvo da ação. Depois os próprios alunos, que terão uma experiência interdisciplinar ímpar, com a satisfação de ver sua ação resultando em ganhos pragmáticos para a comunidade. Esta ação é coerente com a filosofia da Faculdade Evangélica, que é uma instituição filantrópica, que precisa agir socialmente, e é exatamente isso que estará fazendo.


Para encerrar, esclareça algo que ouvi nos corredores. É verdade que você foi fotógrafa profissional?

(Risos). Não sei como você descobriu, mas sim. Durante a graduação trabalhei como fotógrafa. Quando me formei fui deixando aos poucos. Vendi meu equipamento e fiquei apenas com o suficiente para fazer algumas fotos por prazer. Tenho uma dívida para com a fotografia pois anos depois foi através dela que, de certa maneira, conduzi-me para o caminho da Psicologia da Comunicação e Marketing. Analisando fotos e filmes publicitários comecei a me interessar pelo assunto. Hoje, olhando para trás, avalio que precisamos respeitar e de alguma forma incluir no que fazemos, os talentos que temos e que aparentemente não têm utilidade num dado momento. Somos resultado de uma história passada que atualizamos a cada dia. Como professora, incentivo os alunos a buscarem caminhos não trilhados sem receio. Acredito que o tempo do exclusivismo de ações e áreas profissionais está acabando. Estar aberto para o novo, o inabitual, por si só, já é um diferencial competitivo para os novos profissionais que estão entrando no mercado. O profissional melhor habilitado será o capaz de articular conhecimentos de diferentes áreas, integrá-los à sua própria formação e propor assim ações diferenciadas. A base da criatividade é a flexibilidade, mas a base da ação criativa é a confiança nas infinitas possibilidades da sua vida.

Faculdade Evangélica do Paraná / 2005
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