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Ano
02 / nº 13 / Maio de 2005
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AlbaTorres
conta:
FÁTIMA,
A FIANDEIRA
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Numa cidade, do mais longínquo Ocidente,
vivia uma jovem chamada Fátima, filha
de um próspero fiandeiro. Um dia, seu
pai lhe disse:
-
Filha, faremos uma viagem, pois tenho negócios
a resolver nas ilhas do mediterâneo. Talvez
você encontre por lá um jovem atraente,
de boa posição, com quem possa
então se casar.
Iniciaram
assim sua viagem, indo de ilha em ilha; o pai
cuidando de seus negócios, Fátima
sonhando com o homem que poderia vir a ser seu
marido. Mas um dia, quando se dirigiam à
Creta, armou-se uma tempestade e o barco naufragou.
Fátima, semiconsciente, foi arrastada
pelas ondas até uma praia perto de Alexandria.
Seu pai estava morto; e ela ficou inteiramente
desamparada.
Podia
recordar-se apenas vagamente de sua vida até
aquele momento, pois a experiência do
naufrágio e o fato de ter ficado exposta
às inclemências do mar a tinham
deixado completamente exausta e aturdida.
Enquanto
vagava pela praia, uma família de tecelões
a encontrou. Embora fossem pobres, levaram-na
para sua humilde casa e ensinaram-lhe seu ofício
Desse modo, Fátima iniciou nova vida
e, em um ou dois anos, voltou a ser feliz, reconciliada
com sua sorte. Porém, um dia, quando
estava na praia, um bando de mercadores de escravos
desembarcou e levou-a, junto com outros cativos.
Apesar dela se lamentar amargamente de seu destino,
eles não demonstraram nenhuma compaixão:
levaram-na para Istambul e venderam-na como
escrava. Pela segunda vez o mundo da jovem ruíra.
Mas
quis a sorte que no mercado houvesse poucos
compradores na ocasião. Um deles era
um homem que procurava escravos para trabalhar
em sua serraria, onde fabricava mastro para
embarcações. Ao perceber o ar
desolado e o abatimento de Fátima, decidiu
comprá-la, pensando que poderia proporcionar-lhe
uma vida um pouco melhor do que teria nas mãos
de outro comprador. Ele levou Fátima
para casa com a intenção de fazer
dela uma criada para sua esposa. Mas ao chegar
em casa soube que tinha perdido todo o seu dinheiro,
quando um carregamento de mastros fora capturado
por piratas. Não poderia enfrentar as
despesas que lhe davam os empregados e, assim,
ele, Fátima e sua mulher arcaram sozinhos
com a pesada tarefa de fabricar mastros.
Fátima,
grata ao seu patrão por tê-la resgatado,
trabalhou tanto e tão bem que ele lhe
deu a liberdade e ela passou a ser sua ajudante
de confiança. Assim ela chegou a ser
relativamente feliz, em sua terceira profissão.
Um
dia, ele lhe disse:
- Fátima, quero que vá a Java,
como minha representante, com um carregamento
de mastros; procure vendê-los com lucro.
Ela
partiu. Mas quando o barco estava na altura
da costa chinesa, um tufão o fez naufragar.
Mais uma vez Fátima se viu jogada como
náufraga, em uma praia de um país
desconhecido. De novo chorou armargamente, porque
sentia que nada em sua vida acontecia como esperava.
Sempre que tudo parecia andar bem alguma coisa
acontecia e destruía suas esperanças.
-
Por que será que sempre que tento fazer
alguma coisa não dá certo? Por
que devo passar por tantas desgraças?,
perguntou pela terceira vez.
Como
não obteve respostas, levantou-se da
areia e afastou-se da praia.
Acontece
que na China ninguém tinha ouvido falar
de Fátima ou de seus problemas. Mas existia
a lenda de que um dia chegaria certa mulher
estrangeira, capaz de fazer uma tenda para o
imperador. Como naquela época não
existia ninguém na China que soubesse
fazer tendas, todo mundo aguardava com ansiedade
o cumprimento da profecia.
Para
ter certeza de que a estrangeira ao chegar não
passaria desapercebida, uma vez por ano, os
sucessivos imperadores da China costumavam mandar
seus mensageiros a todas as cidades e aldeias
do país pedindo que toda mulher estrangeira
fosse levada à corte. Exatamente numa
dessas ocasiões, esgotada, Fátima
chegou a uma cidade costeira da China. Os habitantes
do lugar falaram com ela através de um
intérprete e explicaram- lhe que deveria
ir à presença do imperador.
- Senhora, sabeis fabricar uma tenda?, disse
o rei, quando Fátima foi conduzida à
sua presença.
- Creio que sim, Majestade.
E
pediu que lhe trouxessem cordas, mas não
havia. Lembrando-se de seus tempos de fiandeira,
Fátima colheu linho e confeccionou as
cordas. Depois pediu uma tela forte, mas os
chineses não dispunham do tipo que ela
precisava. Utilizando sua experiência
junto aos tecelões de Alexandria, Fátima
fabricou uma tela resistente. Percebeu que precisava
de estacas, para sustentar a tenda, mas também
não as encontrou na China. Fátima,
então, recordando-se do ensinamento do
fabricante de mastros em Istambul, fez, com
muita habilidade, estacas firmes. Quando estas
ficaram prontas, ela puxou de novo pela memória,
buscando lembrar-se de todas as tendas que havia
visto em suas viagens. E a tenda real foi construída.
Quando
tal maravilha foi mostrada ao imperador, ele
se prontificou a satisfazer qualquer desejo
que Fátima expressasse. Ela escolheu
estabelecer-se na China, onde depois se casou
com um belo príncipe. Rodeada de seus
filhos e de seu marido, viveu muito feliz até
o fim de seus dias.
Foi através destas aventuras que Fátima
compreendeu que o que lhe parecera, em cada
ocasião, ser apenas uma experiência
desagradável se tornou parte essencial
na construção de sua felicidade.
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Ler a história de Fátima é como
ler a nossa própria história. É
fácil nos identificarmos com a sua superação
dos naufrágios pelos quais passou, pois todos
nós já passamos por isso em algum momento
de nossas vidas. Como toda história, a história
de Fátima pode ser lida sob diversas perspectivas,
tais como, a maneira como seus personagens solucionam
as situações, ou a partir do rico simbolismo
dos seus elementos e lugares.
Quero
convidar vocês para refletirmos sobre alguns
aspectos da trajetória da personagem principal,
Fátima e de como foi o seu processo de transformação
de jovem sonhadora - sonhando com aquele que poderia
vir a ser seu marido - para, após superar situações
de muita adversidade, tornar-se uma realizadora -
e uma tenda foi construída.
Ao
ler novamente a história de Fátima,
buscando encontrar evidências desse processo
de transformação, algumas coisas nos
chamarão mais a atenção, contribuindo
para algumas reflexões mais profundas e, assim,
podermos aprender com a história. Os aprendizados
destacados aqui são, com certeza, apenas algumas
das incontáveis estrelas desse universo maravilhoso
de ensinamento que é essa história.
Uma
das coisas que chama a atenção é
o fato de que Fátima foi para sua primeira
viagem, com o pai, levando consigo uma competência:
ela sabia fiar. A história diz que seu pai
era um próspero fiandeiro. Foi, então,
nesse ambiente de prosperidade que Fátima aprendeu
o ofício de fiandeira. Saber aprender em uma
situação de prosperidade é uma
atitude sábia, da qual nem sempre nos lembramos.
É mais fácil nos lembrarmos de que precisamos
aprender algo quando somos requisitados a isso por
alguma nova situação na vida. A reflexão
aqui é: se estamos numa situação
de prosperidade, o que estamos aprendendo, o que está
nos enriquecendo como ser humano? com que estamos
alimentando nosso ser, e com qual qualidade?
No
primeiro naufrágio Fátima perde todos
os seus bens e o pai, e, aturdida na praia desconhecida,
é recolhida por uma pobre família de
tecelões e com eles aprende novo oficio. Nova
oportunidade de aprendizado, desta vez em uma situação
mais simples e singela. Fátima aprende a tecer.
O tear e o ato de tecer é um símbolo
de criação, de fazer sair de sua própria
substância . Assim, Fátima, sem outros
bens que não ela própria e, com a ajuda
da família dos tecelões, tira de si
mesma a dedicação e a disponibilidade
permanente para aprender. Aqui podemos refletir sobre:
se estamos numa situação onde nos faltam
os recursos externos, estamos preparados para nos
ancorarmos internamente? Estamos preparados para nos
dedicarmos a encarar essa situação como
mais uma oportunidade para aprender e para nos fortalecermos
enquanto pessoas?
Após
alguns anos Fátima se vê no mercado de
escravos, sendo comprada pelo fabricante de mastros,
cujos planos também são alterados por
situações de adversidade. Fátima
dá um passo a mais na sua trajetória,
sabendo ser aprendiz e parceira. Ela forma uma aliança
que permite, não só a ela como também
à família do fabricante de mastros,
prosperarem. Fátima já pode, não
somente aprender, como no caso da sua experiência
com os tecelões, mas também contribuir
para solucionar a situação do fabricante
de mastros, ao ser capaz de formar aliança
de ajuda mútua. Uma reflexão possível
é: será que nós sabemos formar
alianças de ajuda mútua em situações
adversas? Será que sabemos estar disponíveis
para uma dedicação incondicional à
prosperidade, não apenas no nível material?
No
naufrágio do barco com os mastros, o segundo
naufrágio de Fátima, ela chega novamente
a um praia num país desconhecido.
Neste
momento da história ela encontra, ou é
encontrada, pela lenda de que uma mulher estrangeira
construiria uma tenda para o imperador. Quando perguntada
pelo Imperador se sabia construir uma tenda Fátima
diz que sim. Ela sabia exatamente do que precisava
e, mais do que isso, ao não terem o que ela
precisava, ela soube como produzi-los. Lembrando-se
de seus aprendizados anteriores - fiandeira - tecelã
e fabricante de mastros - ela produz as cordas, os
tecidos e as estacas para a tenda.
Podemos
fazer diversas relações sobre a construção
do conhecimento de Fátima. Uma dessas relações
é a relação direta e concreta
entre os aprendizados anteriores, sua cumulatividade
e aplicabilidade. Mas vamos destacar algo que Fátima
também precisou resgatar, algo absolutamente
indispensável para a construção
da tenda: ela precisou puxar da memória todas
as lembranças das tendas que havia visto em
suas viagens.
O
destaque é, então, para a memória.
Fátima tinha a característica pessoal
de se colocar, sabiamente, como aprendriz nas situações
que viveu. Mas esta memória não é
formada apenas pela cumulatividade dos conhecimentos
e habilidades aprendidas, é uma memória
especial, construída quando se está
de fato presente de corpo e alma nas situações
da vida, sejam elas difíceis ou não.
É presença, algo sutil, pessoal, que
dá sentido e função aos conhecimentos
e habilidades adquiridas. É ter presente que
cada um de nós tem uma lenda pessoal que se
realizará ao construir uma tenda, símbolo
da presença do céu sobre a terra(1).
A
história Fátima, a fiandeira, é
uma história para ser lida com um pensamento
sistêmico, não é uma história
linear, pois nossa vida é formada de muitos
ciclos e recomeço. Vivemos essa história
de Fátima várias vezes em uma única
vida. Vale, então, uma reflexão final:
qual a qualidade de nossa presença naquilo
que estamos aprendendo, fazendo, vivendo, hoje, agora,
enquanto nos preparamos um pouco mais para a construção
da tenda real? E você, está cuidando
do desenvolvimento integral de suas dimensões
humanas - intuir, pensar, sentir, e agir - para responder
Sim quando a vida lhe perguntar:
- Sabeis construir uma tenda?
(1)
Chevalier, J., Gheerbrant, A. (1995) Dicionário
de Símbolos. Rio de Janeiro, José
Olympo.
Quem
é Alba Torres
Diretora da Entrelaços - Treinamento &
Desenvolvimento, pesquisadora e contadora de histórias
há 15 anos. Alba utiliza a metodologia Aprendendo
com Histórias em seminários de desenvolvimento
pessoal.
www.entrelacos.com.br
albatorres@entrelacos.com.br
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